Café com Figueroa

Na torcida 02/11/2012
No Chile, um dos maiores zagueiros de todos os tempos fala ao site sobre a decisão da Recopa Sul-Americana, Neymar, passado e presente do futebol

Elias Figueroa

No final de agosto, a passagem do Santos por Santiago congestionou o celular de um ídolo chileno. Os brasileiros enfrentariam a Universidad de Chile pela final da Recopa Sul-Americana. Como parar Neymar, era a pergunta em comum na pauta dos periódicos. Em busca da resposta, repórteres foram atrás do melhor jogador do Chile de todos os tempos. O zagueiro Elías Figueroa.

Don Elías, como é conhecido, brilhou entre os anos 60 e 80. Foi eleito três vezes (de 74 a 76) o número um da América - feito inédito para um defensor - e quatro o principal central do mundo. Disputou três Copas. Na de 74 formou na seleção do torneio. Pelo Inter, ganhou seis estaduais e o bi do Brasileiro. Com direito a gol na decisão de 75 contra o Cruzeiro. Aos colorados, contudo, vale mais o seu scout nos "Grenais": 16 vitórias em 17 disputados.

Naquela semana, fui um dos jornalistas a lotar a caixa postal de Don Elías. Solícito, aceitou de pronto conceder entrevista a este blog em um café na frente do cassino de Viña del Mar, cidade a cerca de 130 km de Santiago. Contou ter rejeitado o Real Madrid para jogar no Inter, criticou a falta de liderança dos zagueiros de hoje e, sim, ensinou a marcar Neymar.

Seguem os principais trechos da entrevista:

1- O Playa Ancha, estádio do Wanderers, seu primeiro time, será reformado para a Copa América de 2015 e passará a se chamar Elías Figueroa. O que achou da homenagem?

É um grande orgulho. E o principal, homenagem feita em vida.

2- Como está o clube atualmente? O senhor acompanha?

Está na primeira (divisão), porém com muitos problemas. Abandonaram alguns valores de minha época. Antes buscavam valores da região, havia uma ligação mais forte dos garotos com o time. Agora correm atrás de gente de fora, de outros países. Os jogadores não têm aquela identificação com o clube.

3- E o futebol chileno, de maneira geral, como vai?

Há uma boa geração. Hoje eles têm a facilidade de jogar na Europa, quase todos estão por lá, vários em times grandes...

4- E isso é bom...

É bom, acostumam-se a enfrentar nomes com os quais irão se deparar nas principais competições. No meu tempo, fora uns poucos amistosos, era raro esse intercâmbio. E os principais craques estavam aqui mesmo, na América do Sul. Basta dizer que Pelé nunca jogou na Europa. Quando estava no Peñarol, recebi propostas do Real Madrid e do Internacional. E preferi o Brasil. Porque naquele momento estavam por lá todos os tricampeões de 70: Pelé, Jairzinho, Gérson, Carlos Alberto. E a Espanha não pagava o que paga hoje.

5- Mas o Real Madrid já era uma potência...

Sim, mas, financeiramente, não havia tanta diferença em relação à oferta do Inter. O detalhe nessa história foi o Heraldo Hermann (presidente do Inter à época) ter ido ao Uruguai para conversar comigo. Ficou lá três dias. Mostrei a ele como eu vivia, minha casa, carros. Na época eu tinha um Mustang, um Volvo, estava bem. Deixei claro que gostaria de manter meu padrão de vida. E Hermann garantiu que manteria tudo. Aceitei. E nunca me arrependi.

6- Quem são os melhores jogadores chilenos hoje?

Alexis Sanchez (atacante do Barcelona) é um dos bons, mas o melhor mesmo é Vidal (meia da Juventus), um jogador mais completo.

7- E Valdívia? Acompanha o futebol brasileiro?

Sim, vejo. Ele é um dos grandes também, mas tem se machucado muito ultimamente.

8- E o que o senhor acha do Neymar?

Sabe que antes do jogo (contra a La U), repórteres daqui me ligaram para  perguntar como marcá-lo...

9- E o que o senhor respondeu?

Ao contrário do que a maioria faz, penso que não é bom marcar de perto. Quando um jogador como ele fica no mano a mano com você, tem dois lados para passar. Minha técnica era induzir o rival a fazer o que eu queria. Como? Abra um lado, como um toureiro. É quase certo que ele partirá para o outro.

10- E, ainda sobre sua especialidade, fala-se muito do brasileiro Thiago Silva como um dos melhores zagueiros do mundo atualmente...

Não tenho visto muito. Mas me parece que será bom para ele ir jogar na França (PSG), onde o futebol não é tão intenso como o italiano e o alemão, por exemplo. É mais parecido com o nosso (sul-americano).

11- Como o senhor compararia os zagueiros de hoje com os de sua época?

Quando jogava no Brasil dei uma declaração que ficou bastante conhecida: "a área é minha casa, só entra quem eu quero". Você tinha de impor respeito. Falta um pouco de personalidade aos defensores atuais. Às vezes, partia dos zagueiros mudar a postura do time em campo, por terem uma visão mais ampla do campo. Sinto falta desse tipo de liderança.

12- Vê alguém hoje com esse perfil?

Aqui no Chile, não.

13- E a seleção brasileira, em que degrau o senhor a colocaria hoje?

O futebol agora está bem equilibrado. Na minha época perder apenas por 2 a 0 do Brasil era bom resultado. Hoje em dia Equador, Colômbia, México, Chile, encaram o Brasil de igual para igual. Acredito, no entanto, que os brasileiros ainda são os melhores, porém sem aquela folga toda.

14- O senhor teve uma experiência como técnico do Inter. Como foi?

Boa. Tive 83% de aproveitamento. Cheguei a receber uma oferta para trabalhar no Valência, da Espanha. Mas já estava cansado, queria me dedicar mais à família. E brigava muito com os dirigentes. Pediam para escalar fulano, cicrano... E, como falei antes, naquela época não se pagava como agora.

15- Hoje há atletas de 15 anos milionários...

Pois é, você sabe que, para não me vender, o Inter chegou a estipular meu passe em US$ 1 milhão. Aí saímos em excursão à Europa e, quando passamos pela Inglaterra, havia sido publicada uma reportagem que me tratava como o "homem de um milhão de dólares". Hoje em dia isso não é nada.

16- O Falcão passou por situação semelhante. Ídolo do Inter, assumiu como treinador, mas não ficou muito tempo...

É difícil para quem foi ídolo do clube virar treinador. Você teme perder o respeito da torcida. Começam a te xingar de "burro", situação pela qual nunca tinha passado. Agora está o Fernandão. É a mesma coisa.

17- E daquele histórico time do Inter bicampeão brasileiro, quais suas principais lembranças?

Era uma equipe espetacular. Manga, Falcão, Carpegiani, que era o nosso motorzinho. E lembro bem do Caçapava, ótimo marcador. Eu o dirigia o tempo todo em campo, ele precisava um pouco disso. Quando jogava contra o Rivellino, por exemplo, mandava sempre colar nele feito carrapato.

18- O Inter ganhou o Brasileiro de 75 e 76 e 79. Desde então venceu a Libertadores e o Mundial, mas o Nacional...

E sabe por que não ganhamos mais Libertadores naquela época? Eu defendia que deveria ser prioridade, afinal tinha vindo do Peñarol, onde o torneio é valorizadíssimo. Mas no Inter a prioridade era ganhar do Grêmio, a Libertadores ficava em segundo plano (risos). Tanto que vencemos o Gaúcho seis vezes e, em seis anos, perdi apenas um em 17 "grenais". E ainda dei sorte de fazer alguns gols contra eles também.

19-) Falando em gols, foi seu o da vitória contra o Cruzeiro na final do Brasileiro de 75. Conhecido como " Gol Iluminado". Foi o lance mais importante de sua carreira?

Sim, ficou tão marcado que hoje tenho uma fundação aqui no Chile e nos Estados Unidos que se chama "Gol Iluminado" (no momento do gol um facho de luz iluminava a parte do campo em que Figueroa subiu para cabecear).

Comentários

  1. João Ricardo disse:

    16 vitórias em 17 clássicos! Parabéns pela entrevista com Don Elías. Muito bacana.

    1. Fábio Soares disse:

      Valeu. Aproveitei o feriado para tirar…
      abs